sábado, 27 de fevereiro de 2010

Eu você e mais alguém


Algumas questões ainda me intrigam no que tange a relação entre homem e mulher. Talvez pareça repetitivo o tema, mas julgo oportuno debatê-lo, pois nunca está acabado. A maioria das relações tem a base tradicional, isto é, monogâmica com papéis preestabelecidos para ambas as partes. Um modelo gasto nem sempre de bons frutos.  Diversas são as dificuldades: de ordem sexual, financeira, profissional, o ritmo para vida dentre outros.
Há casais que dividem a mesma casa, mas vivem isolados um do outro. Não porque preserva a individualidade de cada qual, mas pela ausência de adequação na convivência. E quando isso ocorre o que fazer?  Após alguns anos de convivência as coisas mudam, e alguns casais buscam juntos uma saída, enquanto outros mais se distanciam.
 As relações permanentes necessitam de certa leveza, de comunicação e de liberdade para ter a sua própria dinâmica. Para tanto necessita da maturidade de seus componentes, algo firmado no dia a dia. Através dos objetivos particulares bem como dos impulsos que os fazem permanecerem juntos. Carl Rogers nos traz relatos interessantes em seu livro “Novas Formas do Amor” de casais que por motivos diferentes experimentaram comunas onde compartilharam uma vida em comum e permitiram-se ter relações sexuais com pessoas da casa. De casais que decidiram experimentar a presença de outro ou outra na relação. Isso há décadas atrás, todavia nos dias atuais tal comportamento é recriminado pela maior parte da sociedade, que pouco contribui para o crescimento individual auxiliando no ciclo vicioso. As relações paralelas contribuem ou apenas arruínam a relação onde o estado terminal é evidente? É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? Num curioso relato do mesmo livro citado, um jovem afirma ser possível, uma vez que o movimento das duas relações é distinto pelas peculiaridades das mulheres envolvidas; e não é uma visão machista do fato, visto que uma mulher também faz declaração semelhante. Algo para mim intrigante, merecedor de momentos de reflexão.  A relação sexual para algumas pessoas é descrita como uma necessidade biológica e para outras como um encontro íntimo por se tratar de uma aproximação do outro numa esfera maior. O que ocasiona o sentimento de posse e a rivalidade. Acredito ser um momento tenso na relação, mas também de crescimento. Pois, o olhar sobre as mudanças deve ser de curiosidade sem barreiras. Se o outro não é minha propriedade, resta-me a comunicação em direção ao crescimento de ambos, não sem sofrimento. Portanto, percebo nessa situação a fragilidade do indivíduo e no modo de lidar com a relação.
O casamento sob o meu entendimento não é o ápice da relação, mas o começo de uma jornada a dois, sem nenhuma das partes se diluírem nele. Ao contrário, que seja o despertar individual consentindo a vivência com o outro e suas diferenças, que não me completam, mas antes me estimulam, num ato recíproco. 

Construir relações


O psicólogo Carl R. Rogers traz em seu livro “Novas Formas de Amor”  reflexões para relacionamentos. O que nos leva a um retorno ao nosso íntimo, não obstante secreto até para nós mesmos. Por vezes, esse desconhecimento de si aliado a presença alheia do outro, culmina desfechos dolorosos no casamento, na família. A família ainda hoje, em certa medida, forçosamente pela cultura ou pela religião dentre outros fatores é a célula mater da sociedade. Por assim ser condiciona muitas ações, reprime e anula o ser pleno.
Pude constatar em depoimentos de casais no livro e no ciclo de amigos, ainda que estejam muito separados na linha do tempo, a necessidade da comunicação nas relações bem como do descobrimento de si. Ou seja, o processo começa no indivíduo para expandir-se para a relação posteriormente. A palavra descobrimento aqui não foi utilizada em vão, pois há quem passe toda uma vida sem dar-se conta dos mistérios camuflados em si. O próprio comportamento associado as suas escolhas não são mais que reflexos do desejo de realização da família, da religião, dos amigos, isto é, da pressão exercida pela sociedade. Sem questionar se é viável ou mesmo prazeroso. Portanto, se limitam diante do vasto leque de possibilidades sem experimentar algumas delas. E dessa forma perdem a oportunidade de se conhecer.
Os relacionamentos são bons exemplos da comodidade de ser marionete social. Baseados em regras tidas como moldes, aos quais todos devem adequar-se seguindo um fluxo já existente. O resultado são divórcios, desequilíbrios de toda ordem, dramas familiares etc. Não acredito em fórmulas para acertos nessa área, contudo com autoconhecimento nos permitimos experimentar com inclinação individual e de maneira singular construir a relação sem temer comunicação e os seus resultados. Quem experimenta conhece seu próprio limite assumindo as suas responsabilidades sem precisar das “muletas”.