terça-feira, 10 de novembro de 2009

As contradições de ser mulher Parte 1

Será que a mulher tornou-se masculinizada? Masculinizar-se significa negar a si mesma, restringir o campo de atuação. É essa uma atitude perversa, sufocar um ponto de vista, ou o modo de sentir a vida. A sua maneira metamoforseou-se ao longo do tempo. O que mudou o seu perfil na sociedade e traz questionamentos sobre o desempenho de seus papéis. A mulher enfrenta preconceitos de diversas ordens até os dias atuais, ainda que estude mais, e conseqüentemente ocupe seu espaço no mercado de trabalho. O que lhe acarreta ganhos e o peso de ter sua competência avaliada em constantes decisões. Sua vida profissional em grande parte é fonte de realização contrastando com o motivador delas no período, por exemplo, de suas avós; onde era comum a plenitude dessas mulheres através do casamento e da criação dos filhos. Atualmente é possível percebermos uma inclinação para unificar esses dois universos, o que em certa medida causa o acúmulo de funções levando a mulher também ao ranque de algumas doenças cardiovasculares, estresse etc. O seu cotidiano foi alterado e com ele todo o seu universo. Elas sabem que podem sentir o mundo com suas particularidades, sentem-se capazes, mas para terem o direito sobre suas próprias vidas ainda hoje no século XXI depara-se com as barreiras preestabelecidas pela sociedade. Elas ocupam cargos antes tidos como apenas masculinos, em quase todas as funções é possível encontrar sua presença. Entretanto, têm salários menores em relação aos dos homens em algumas partes do país. O estigma da fêmea que serve de caça para os predadores ainda hoje nos locais de trabalho são facilmente encontrados. Ou seja, a mulher precisa provar diariamente que é capaz de expandir-se na sua profissão. Isso depois de ter conquistado muito em vários setores.  Talvez seja essa a maior contribuição para que em determinadas circunstâncias elas se comparem aos homens, e por falta de entendimento da sua própria condição deixem a delicadeza peculiar ao seu ser.  Com as mudanças vieram outras cobranças. A sua busca é pela liberdade de ser mulher e sua individualidade. Elas requerem o direito de doarem-se quando julgar possível e a quem julgar merecedor ou merecedora. Ser mãe, profissional, cuidar do lar e ter um companheiro que divida as tarefas e os meandros da vida cotidiana. Que lhe permita exercer sua sedução e exaltar sua vaidade.

Parte 2



E por que não conquistar pela equidade sua sensualidade e sexualidade também. Com o sorriso sedutor, com a delicada arte de persuadir, e olhos expressivos, capaz de despertar paixão. Ela quer aflorar a deusa Vênus que guarda em si.  Sair do deserto sem vida para dar cor, cheiro e sabor a sua existência. A mulher quando aceita-se como é, permite-se um crescimento significativo de modo geral em sua vida. Despir-se dos próprios mitos colabora para a mudança, não esconder seu instinto por exemplo. Viver a sua sexualidade sem tabus cuidando da saúde, sem rótulos, com a dignidade de quem faz o seu caminho.  Sem precisar ser escravizada pela mídia narcisistica, ou se deixar influenciar tentando seguir tipos físicos incompatíveis com o seu biotipo; ou ainda tornarem-se dependentes dos cosméticos, das cirurgias plásticas em busca da perfeição do corpo. Elas podem escolher em não ser o objeto manipulado de cores e formas sempre mutáveis. Podem sim, mostrarem-se interessantes através de seu gosto musical, opiniões, leituras, do gosto pela dança, da conversa, quer dizer por seus interesses. Como uma boneca montada por tendências impostas pode manter relacionamentos prazerosos? Ou será que somos apenas parte de uma grande vitrine? Com isso alimentam a ditadura da beleza e banalizam atributos femininos. A mulher deve repensar seu papel não abdicando dos direitos conquistados, mas refletindo sobre a sua qualidade de vida.
Há mulheres que deturpam as conquistas femininas, algo exposto diariamente em programas de televisão bem como em anúncios. Contribuindo com a sua própria marginalização. Como na utilização de sua imagem oca para capas de revistas masculinas, o nu é sim um trabalho belo, de acordo como é feito. Embora, a massificação da venda da imagem do próprio corpo sem um algo mais para ser explorado é comparada a sua venda.  Celebridades instantâneas surgem com essa intenção quase que diariamente. Com atitudes similares dos homens agem contra si, com a repetição de atos outrora criticados sendo repetidos por elas. Homens e mulheres possuem formação psicológica distintas, portanto ambos vivenciam cada qual a sua maneira; é perda de energia tentar compará-los. Surge uma necessidade de ambos repensarem como lidar com o que ficou depois de tantas mudanças. Os homens aprenderam a mostrar seus sentimentos de tal maneira que as mulheres precisam aprender a relacionar-se com o lado frágil deles. A fragilidade masculina a deixa confusa.

Parte 3


Quando os papéis se equilibram pede que tanto um quanto outro repense suas relações. Esse é um dado que lota as salas de terapia. 


A invenção da pílula permitiu a escolha de seu ou de seus parceiros uma vez que o gênero feminino é dotado de desejos e anseios tanto quanto o gênero masculino; trouxe a escolha de ter ou não filhos; e ainda de poder programar o nascimento desses filhos; em conseqüência auxiliou em sua inserção no mercado de trabalho; que a tornou consumidora direta; tornou-a independente. Desapegadas de fórmulas prontas de comportamento, corroboram para a sua autoconstrução. A constituição do gênero feminino não é só pelo aspecto biológico, mas também pela carga cultural que herda. A cultura apoiou a criação de estigmas que apesar de obsoletos são utilizados até os dias atuais. O que proporcionou um estereótipo da mulher repassado por muitas famílias que insistem em perpetuar a hipocrisia social. Solidificada com a desunião feminina, difundida em sua lida entre si, geralmente como adversárias como se desconhecessem aquele universo ou fossem tocadas de repulsa por ele. Isto pode revelar o medo de assumir-se mulher. E são elas que repassam boa parte das atitudes machistas para seus rebentos, uma vez que foram educadas dentro desse molde patriarcal. Aprenderam a elevar os valores masculinos, em detrimento dos femininos. Ao valorar as diretrizes externas inicia o seu processo de inferioridade onde não raro desperta a depressão.


O reflexo dessa nova mulher é visto também na dificuldade de encontrar seus parceiros. Será exigência ou capricho? Ou a busca de alguém para compartilhar seus anseios não é mais que alguém para a reprodução? Faço um parêntese para ressaltar que há confusão entre o modelo antigo e o novo do agir da mulher, pois algumas agem com modernidade esperando uma resposta a moda antiga por parte do homem. Há casos de auto-suficiência feminina, o que inibe a aproximação masculina. Será? Refletir sobre os objetivos numa relação é necessário, uma vez que essa é constituída por uma troca.

A evolução da ciência colabora para a qualidade de vida, o que não deixa de ser um auxílio para ampliar e qualificar a sua maturidade.

Parte 4


A mulher tem seu modo de olhar o mundo, de lidar com suas emoções e de representar a sua subjetividade. A igualdade de direitos lhes proporciona a reutilização de tempo, e a expressarem-se sobre seus sofrimentos, seus sonhos, seus medos, suas realizações. As peculiaridades femininas instigam a irmos ao seu encontro. As diferenças não devem separar os gêneros, mas tornar sua busca mais prazerosa. A presença masculina não diminui a feminina, guardada as diferenças, ao contrário permitem aflorar aspectos belíssimos do ser mulher. Quando ela busca o que acredita ser melhor para o seu desenvolvimento pessoal com a responsabilidade de não sucumbir às justificativas vindas de fora. Consegue ser dona de seus dias, e é assim que elas fazem valer a luta pela igualdade mostrando-se forte. A partir dessa consideração elas podem transmitir um modo de pensar e agir diferente para novas gerações. Sem deixar sua sensualidade ofuscada pode provar que a utilização de seu corpo sexualmente não é a única opção para alcançar suas conquistas. Mas se assim o desejar é livre para tal utilização.




Andanças


Antônio Pietro era um homem maduro. Marcado por experiências difíceis desde a sua infância. E se for como dizem por aí, a história de cada um o constrói, é apropriado pensá-lo assim. Já trabalhara de quase tudo na vida e depois de muita dificuldade estava numa empresa que pagava além de seu salário suas horas extras. O que de algum modo já era muito para custear a educação da sua criança. Sol de sua vida como ele costumava dizer. Após alguns anos de vida promíscua dividia sua vida e casa com uma bela mulher capaz de fazê-lo nutrir sentimentos controversos, bem como sua conduta com essa dona.
Ela era meiga, companheira e o amava desesperadamente, de tal forma que parecia incomodá-lo. A falta de amor na infância parece ter afetado algo naquele homem que não queria ser amado ainda que discursasse diferente. Dessa maneira Antônio Pietro conseguia enlouquecer sua companheira, pois como o amor que o envolvia parecia aprisioná-lo, não sabia explicar como, ele estava sempre investindo como bom homem latino em outras mulheres. Era quase uma competição interna. Ele defendia-se com argumentos até certo ponto válidos, porém ininteligíveis para o coração de uma mulher que o venerava. Ele foi criança que conheceu o desamor, a fome, a rejeição. Cresceu e permaneceu no anonimato, era um vagabundo em potencial. Mas as ruas ensinam, dizia ele, e o pequeno Antônio Pietro aprendeu muita coisa. Era esperto e inteligente. Tinha a capacidade de cativar os que estavam ao seu redor, e mesmo de manipulá-los tinha literalmente o dom da palavra. Com apoio de sua devota mulher conseguiu terminar os estudos, o degrau para o seu atual emprego. O mais curioso nesse homem é a usa inconstância, fazendo-o movimentar-se na vida com uma sede do deserto. Dispondo-se a experimentar a vida em todas as suas possibilidades com todas as suas potencialidades. Sempre fiel a ele mesmo; deixando para trás seu rastro de dor e de saudade nas pessoas cativadas. Antônio Pietro trazia um vazio consigo, junto com um desprezo pelas pessoas que o acompanhava em suas conquistas, ele jamais conseguiu amar, apesar de ter sido amado inúmeras vezes de maneiras diversas. Havia nele um medo infantil do abandono. Ainda assim, conseguiu colecionar personagens femininas em sua trajetória, loiras, negras e pardas. Suas personalidades, idades, profissões variavam também, isto porque a necessidade de Antônio Pietro era está ligado ao universo feminino. Dividia-se entre elas, porém a nenhuma amava e sozinho percorria o seu caminho. Conseguiu o respeito dos amigos, camaradas de conversas regadas a muito vinho e literatura. Até o final, velho e cansado se vangloriava por ter tanto a contar aos mais novos, que de modo geral era os seus quase discípulos. Algumas tardes ele sentava-se para esperar a despedida do sol, e com essa paisagem lembrava as suas aventuras. Ao sol se pôr voltava a sua realidade na velha cadeira do asilo.